A Unb agora está de greve e eu tenho um ensaio da minha proxima peça de teatro. São sete da noite e não seria tarde se a Unb não estivesse vazia que nem um deserto. E eu talvez não estivesse tão preucupada se não tivessem retratos falados de um estuprador em todos os lugares por um estupro recente. E eu andando sete horas da noite, indo para o lugar de trabalho, e de repente vejo um homem caminhando na minha frente indo mais ou menos na direção que me encaminho. Ele me viu e não parou, estava andando na minha frente com ainda uma distância de cem ou duzentos metros. Foi impressão minha ou ele acabou de virar de novo pra ver se eu ainda estou aqui? Estamos nos direcionando a um lugar ainda mais escuro e ainda mais vazio. E eu começo a suar frio, o coracão batendo mais forte e eu ficando realmente ansiosa, com vontade de voltar pra casa. Odeio me sentir uma menina insegura com medo de homem. Não tem ninguém neste lugar. Todos de greve; funcionários, professores. E eu que não tenho carro vou andando. E então vejo duas mulheres saindo no mato e cruzando na minha frente. Já estou pronta a falar com as desconhecidas e pedir companhia encarecidamente. Olho melhor e vejo, uma amiga minha, feminista pra melhorar, e eu, a esta altura literalmente tremendo de medo, sorrio de alívio. E elas que afinal são duas feministas, consentem com a cabeça, fazem algum comentário sobre o medo cotidiano das mulheres neste mundo de homens e me acompanham. Chego no ensaio e não digo nada.
Nos anos cinquenta a feminista Simone de Beauvoir entrevistou crianças como pesquisa para o seu livro O Segundo Sexo. A pergunta era qual menino tinha tido vontade de nascer menina e por que, e qual menina tinha vontade de ser um menino e por que. A resposta não parece muito difícil de adivinhar, mesmo o questionário tendo sido feito a quase sessenta anos atrás. Entre as meninas, muitas queriam ter nascido menino, por que estes podiam correr mais, se sujar mais, falar alto e tantas outras coisas proibidas às meninas pelas idéias sobre o que uma menina dever ser; limpa, quieta, bonita e educada.
Enfim, mesmo crianças os meninos tinham mais liberdade e estavam livres da obssessão pela beleza que nos é forçada na infância e será alimentada a nausea até o final da vida. A resposta dos meninos também foi emblemática, dos meninos entrevistados somente um falou que não se importaria em ter nascido menina. Elas sabiam e eles sabiam que neste mundo é muito melhor ser homem.
Quando criança eu já era feminista e tinha certeza que podia fazer tão bem quanto, ou melhor, qualquer coisa que um garoto fizesse. Eu era forte e atlética e mesmo nas brigas não ficava atrás pra ninguém. Assim, se a Simone tivesse feito essa pergunta pra mim eu, suponho que eu teria dito que não, que não queria ser um menino, já que como menina eu podia fazer qualquer coisa.
Anos depois talvez eu reconsiderasse. Hoje ser homem me parece invejável quando penso que os homens andam tranquilos à noite. Eu não preciso explicar, toda mulher sabe e já passou por isso, a ansiedade que pode ser leve ou se tornar um verdadeiro pavor ao ter que andar sozinha a noite em um lugar mais ou menos desabitado ou escuro. As vezes de dia em lugar deserto pode ser perturbador também.
O toque de recolher para as mulheres está escrito nas linhas invisíveis da cultura e está aí pra todas, depois que o sol se põe, tudo pode acontecer com uma mulher sozinha.
Estupro.
A palavra é horrenda e carrega significados ainda mais horrendos. Sempre foi usado como arma de guerra por exemplo, até nas guerras mais recentes, afinal não estamos falando do passado. Mas de qualquer maneira hoje eu quero falar do cotidiano.
Em uma sociedade que cultiva o mito de que os homens tem desejos sexuais incontroláveis e que cabe as mulheres controlá-los, em algum nível, será sempre culpa da mulher o estupro. E é uma profecia auto realizável, assim, ao fim homens e mulheres acreditam nesta bobagem e usam isso de desculpa para as ações mais repugnantes, como o homem que abusa de uma menina de dez anos e diz ao juiz que ela era muito sedutora. A culpa dos crimes sexuais é sempre da mulher. Uma mulher é estuprada e a pergunta, às vezes indizivel, é “ela estava andando sozinha a noite? hm…”e o que está implicito é isso: Ela não conhece o toque de recolher? Não sabe que uma mulher sozinha a noite está sujeita ao que acontecer? E a minha pergunta favorita de todas: Ela estava vestindo o que?
E nós sabemos tudo isso desde sempre, uma mulher sozinha a noite não merece muita simpatia, ele pode até pensar que é uma prostituta e com as prostitutas se pode fazer qualquer coisa. Veja bem, qualquer coisa. E assim nós, moças de bem, nós que não somos prostitutas, nós que em teoria merecemos os respeito dos homens, criamos todas as estratégias para ter uma vida normal e nunca nos colocarmos em situação de risco. Meninas sem carro dormem na casa das amigas, imploram compania para os trajetos, as vezes até pra desconhecidas, conheci uma menina que esperava amanhecer pra voltar pra casa, se saia a noite.
No entanto, não importa o quão previnida você seja, em algum momento vai se encontrar nesta situação. Um estacionamento escuro, um trajeto pequeno que seja, algum erro de cálculo, afinal quando você chegou mais cedo esse lugar parecia tão mais seguro. E se as deusas ajudarem vai ser só mais um susto, que quando passar você vai se sentir boba, pensar que a situação não é tão ruim assim e que afinal de contas essas coisas não acontecem deste jeito, com essa frequência.
E quando você finalmente se sente mais segura, descobre que uma conhecida foi estuprada, ou ainda, que uma desconhecida foi estuprada em um lugar que você frenquenta. E você talvez comente com uma amiga, que vai dizer que é bravo e não vai tocar no assunto. E sozinha você sabe que aquele sentimento incomodo volta de novo a te assombrar.
A pouco tempo uma menina foi estuprada na Universidade de Brasilia. Perto do meu departamento. Tem retratos falados em todos os lugares. A unb não é um lugar violênto pra homens, espaço de furtos e não de assaltos, mas sempre houveram estupros. A unb é um lugar seguro, onde os homens caminham tranquilos à noite.
terça-feira, 6 de abril de 2010
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Tudo isso sem contar com a violência velada que sofremos ao andar na rua em plena luz do dia e escutar comentários horrendos e ter que escutar calada, por esse maldito medo, muitas vezes bobo, que sentimos. É a etiqueta social minha cara ;)
ResponderExcluirJá experimentou andar armada? Ficarás de sentindo mais forte que o maguila
ResponderExcluirE a violência se combate com violência é claro...pra quê o ser humano se conscientizar não é mesmo? Inutilidades e lirismos...
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