Dia desses eu assisti uma peça incrível chamada In On It. Foi no Cena Contemporanea e essa peça me fez refletir sobre uma coisa bastante comum nas artes ultimamente; A quebra da ficção e a inserção do reconhecimento da realidade com comentários, opiniões e tudo mais. Não que seja exatamente uma novidade, Machado de Assis já fazia ao falar diretamente com o leitor e sei lá, Shakespeare também.
Ainda assim, soa mais ou menos como uma contravenção, um quebrar de regras. No meio do uma cena dramática, que te faz acreditar, o personagem x que diz algo para o personagem Y e toda a cena está te comovendo quando o ator para e diz, “eu acho foda ele dizer isso pra ela!!!”
Ou quando um personagem no meio de uma crise de consciencia pergunta “Aonde eu estou, o que é que eu estou fazendo ?” e o outro responde, “numa peça querido”.
E o público adora. Eu adoro. O reconhecimento da realidade, ou a interrelação entre a verdade e a ficção tem sido muito explorado. Acho que depois da teoria da relatividade e do reconhecimento de que não existe neutralidade, existe a necessidade de não da subjetividade, mas do reconhecimento da subjetividade.
Ajuda o fato de que o Individualismo, a Propaganda, o Capitalismo e a Democracia deram a todos o direito de uma opinião, ou melhor, o direito de expressar esta opinião. Assim a contemporaneidade não possui mais seu discurso, sua palavra inteiramente amarrada pelas ditaduras, pela moral, pela tradição, pela religião e as vezes, nem pelo bom senso.
Acho que uma consequência deste fenomeno é a variedade de reality shows e inclusive os blogs, vlogs e afins, todo mundo que dizer o que pensa. As grandes verdades e teorias estão em baixa e as pessoas estao mais interessadas em soluções pessoais, em pessoalidades.
O problema é claro, é que as pessoas se dão ao luxo de falar qualquer coisa, muitas vezes sem informação, baseadas em preconceitos e estereótipos sociais que mais dificultarm do que facilitam a vida em comunidade. Tipo esses astros da internet que as vezes até são engraçadinhos ou coisa assim, mas não tem muito o que dizer.
Dia desses uma professora falava que senso crítico só existe com repertório, ou seja, com o conhecimento de vários materiais. Depois de assistir muitos filmes, ler muitos livros, assistir muitas peças de teatro uma pessoas se torna mais crítica, menos fácil de agradar e ser arrebatada. O porquê nao tem necessáriamente a ver com arrogância intelectual (embora exista, com certeza), mas por exposiçao continuada e senso crítico. O que antes pareceria incrível, agora é bom, e o incrível ser torna realmente a excessão e não a regra.
Ainda assim tem muitos blogs interessantes, de pessoas incríveis, tem muitas idéias originais, e acho que é uma necessidade atual a auto-ironia, o reconhecimento da ficção/realidade que envolvem as artes. Existe auto-consciência demais pra nao perceber nossos próprios ridículos, nossas falhas, e as vezes, simplesmente a nossa condição.
sábado, 4 de setembro de 2010
terça-feira, 6 de abril de 2010
Os homens caminham tranquilos à noite
A Unb agora está de greve e eu tenho um ensaio da minha proxima peça de teatro. São sete da noite e não seria tarde se a Unb não estivesse vazia que nem um deserto. E eu talvez não estivesse tão preucupada se não tivessem retratos falados de um estuprador em todos os lugares por um estupro recente. E eu andando sete horas da noite, indo para o lugar de trabalho, e de repente vejo um homem caminhando na minha frente indo mais ou menos na direção que me encaminho. Ele me viu e não parou, estava andando na minha frente com ainda uma distância de cem ou duzentos metros. Foi impressão minha ou ele acabou de virar de novo pra ver se eu ainda estou aqui? Estamos nos direcionando a um lugar ainda mais escuro e ainda mais vazio. E eu começo a suar frio, o coracão batendo mais forte e eu ficando realmente ansiosa, com vontade de voltar pra casa. Odeio me sentir uma menina insegura com medo de homem. Não tem ninguém neste lugar. Todos de greve; funcionários, professores. E eu que não tenho carro vou andando. E então vejo duas mulheres saindo no mato e cruzando na minha frente. Já estou pronta a falar com as desconhecidas e pedir companhia encarecidamente. Olho melhor e vejo, uma amiga minha, feminista pra melhorar, e eu, a esta altura literalmente tremendo de medo, sorrio de alívio. E elas que afinal são duas feministas, consentem com a cabeça, fazem algum comentário sobre o medo cotidiano das mulheres neste mundo de homens e me acompanham. Chego no ensaio e não digo nada.
Nos anos cinquenta a feminista Simone de Beauvoir entrevistou crianças como pesquisa para o seu livro O Segundo Sexo. A pergunta era qual menino tinha tido vontade de nascer menina e por que, e qual menina tinha vontade de ser um menino e por que. A resposta não parece muito difícil de adivinhar, mesmo o questionário tendo sido feito a quase sessenta anos atrás. Entre as meninas, muitas queriam ter nascido menino, por que estes podiam correr mais, se sujar mais, falar alto e tantas outras coisas proibidas às meninas pelas idéias sobre o que uma menina dever ser; limpa, quieta, bonita e educada.
Enfim, mesmo crianças os meninos tinham mais liberdade e estavam livres da obssessão pela beleza que nos é forçada na infância e será alimentada a nausea até o final da vida. A resposta dos meninos também foi emblemática, dos meninos entrevistados somente um falou que não se importaria em ter nascido menina. Elas sabiam e eles sabiam que neste mundo é muito melhor ser homem.
Quando criança eu já era feminista e tinha certeza que podia fazer tão bem quanto, ou melhor, qualquer coisa que um garoto fizesse. Eu era forte e atlética e mesmo nas brigas não ficava atrás pra ninguém. Assim, se a Simone tivesse feito essa pergunta pra mim eu, suponho que eu teria dito que não, que não queria ser um menino, já que como menina eu podia fazer qualquer coisa.
Anos depois talvez eu reconsiderasse. Hoje ser homem me parece invejável quando penso que os homens andam tranquilos à noite. Eu não preciso explicar, toda mulher sabe e já passou por isso, a ansiedade que pode ser leve ou se tornar um verdadeiro pavor ao ter que andar sozinha a noite em um lugar mais ou menos desabitado ou escuro. As vezes de dia em lugar deserto pode ser perturbador também.
O toque de recolher para as mulheres está escrito nas linhas invisíveis da cultura e está aí pra todas, depois que o sol se põe, tudo pode acontecer com uma mulher sozinha.
Estupro.
A palavra é horrenda e carrega significados ainda mais horrendos. Sempre foi usado como arma de guerra por exemplo, até nas guerras mais recentes, afinal não estamos falando do passado. Mas de qualquer maneira hoje eu quero falar do cotidiano.
Em uma sociedade que cultiva o mito de que os homens tem desejos sexuais incontroláveis e que cabe as mulheres controlá-los, em algum nível, será sempre culpa da mulher o estupro. E é uma profecia auto realizável, assim, ao fim homens e mulheres acreditam nesta bobagem e usam isso de desculpa para as ações mais repugnantes, como o homem que abusa de uma menina de dez anos e diz ao juiz que ela era muito sedutora. A culpa dos crimes sexuais é sempre da mulher. Uma mulher é estuprada e a pergunta, às vezes indizivel, é “ela estava andando sozinha a noite? hm…”e o que está implicito é isso: Ela não conhece o toque de recolher? Não sabe que uma mulher sozinha a noite está sujeita ao que acontecer? E a minha pergunta favorita de todas: Ela estava vestindo o que?
E nós sabemos tudo isso desde sempre, uma mulher sozinha a noite não merece muita simpatia, ele pode até pensar que é uma prostituta e com as prostitutas se pode fazer qualquer coisa. Veja bem, qualquer coisa. E assim nós, moças de bem, nós que não somos prostitutas, nós que em teoria merecemos os respeito dos homens, criamos todas as estratégias para ter uma vida normal e nunca nos colocarmos em situação de risco. Meninas sem carro dormem na casa das amigas, imploram compania para os trajetos, as vezes até pra desconhecidas, conheci uma menina que esperava amanhecer pra voltar pra casa, se saia a noite.
No entanto, não importa o quão previnida você seja, em algum momento vai se encontrar nesta situação. Um estacionamento escuro, um trajeto pequeno que seja, algum erro de cálculo, afinal quando você chegou mais cedo esse lugar parecia tão mais seguro. E se as deusas ajudarem vai ser só mais um susto, que quando passar você vai se sentir boba, pensar que a situação não é tão ruim assim e que afinal de contas essas coisas não acontecem deste jeito, com essa frequência.
E quando você finalmente se sente mais segura, descobre que uma conhecida foi estuprada, ou ainda, que uma desconhecida foi estuprada em um lugar que você frenquenta. E você talvez comente com uma amiga, que vai dizer que é bravo e não vai tocar no assunto. E sozinha você sabe que aquele sentimento incomodo volta de novo a te assombrar.
A pouco tempo uma menina foi estuprada na Universidade de Brasilia. Perto do meu departamento. Tem retratos falados em todos os lugares. A unb não é um lugar violênto pra homens, espaço de furtos e não de assaltos, mas sempre houveram estupros. A unb é um lugar seguro, onde os homens caminham tranquilos à noite.
Nos anos cinquenta a feminista Simone de Beauvoir entrevistou crianças como pesquisa para o seu livro O Segundo Sexo. A pergunta era qual menino tinha tido vontade de nascer menina e por que, e qual menina tinha vontade de ser um menino e por que. A resposta não parece muito difícil de adivinhar, mesmo o questionário tendo sido feito a quase sessenta anos atrás. Entre as meninas, muitas queriam ter nascido menino, por que estes podiam correr mais, se sujar mais, falar alto e tantas outras coisas proibidas às meninas pelas idéias sobre o que uma menina dever ser; limpa, quieta, bonita e educada.
Enfim, mesmo crianças os meninos tinham mais liberdade e estavam livres da obssessão pela beleza que nos é forçada na infância e será alimentada a nausea até o final da vida. A resposta dos meninos também foi emblemática, dos meninos entrevistados somente um falou que não se importaria em ter nascido menina. Elas sabiam e eles sabiam que neste mundo é muito melhor ser homem.
Quando criança eu já era feminista e tinha certeza que podia fazer tão bem quanto, ou melhor, qualquer coisa que um garoto fizesse. Eu era forte e atlética e mesmo nas brigas não ficava atrás pra ninguém. Assim, se a Simone tivesse feito essa pergunta pra mim eu, suponho que eu teria dito que não, que não queria ser um menino, já que como menina eu podia fazer qualquer coisa.
Anos depois talvez eu reconsiderasse. Hoje ser homem me parece invejável quando penso que os homens andam tranquilos à noite. Eu não preciso explicar, toda mulher sabe e já passou por isso, a ansiedade que pode ser leve ou se tornar um verdadeiro pavor ao ter que andar sozinha a noite em um lugar mais ou menos desabitado ou escuro. As vezes de dia em lugar deserto pode ser perturbador também.
O toque de recolher para as mulheres está escrito nas linhas invisíveis da cultura e está aí pra todas, depois que o sol se põe, tudo pode acontecer com uma mulher sozinha.
Estupro.
A palavra é horrenda e carrega significados ainda mais horrendos. Sempre foi usado como arma de guerra por exemplo, até nas guerras mais recentes, afinal não estamos falando do passado. Mas de qualquer maneira hoje eu quero falar do cotidiano.
Em uma sociedade que cultiva o mito de que os homens tem desejos sexuais incontroláveis e que cabe as mulheres controlá-los, em algum nível, será sempre culpa da mulher o estupro. E é uma profecia auto realizável, assim, ao fim homens e mulheres acreditam nesta bobagem e usam isso de desculpa para as ações mais repugnantes, como o homem que abusa de uma menina de dez anos e diz ao juiz que ela era muito sedutora. A culpa dos crimes sexuais é sempre da mulher. Uma mulher é estuprada e a pergunta, às vezes indizivel, é “ela estava andando sozinha a noite? hm…”e o que está implicito é isso: Ela não conhece o toque de recolher? Não sabe que uma mulher sozinha a noite está sujeita ao que acontecer? E a minha pergunta favorita de todas: Ela estava vestindo o que?
E nós sabemos tudo isso desde sempre, uma mulher sozinha a noite não merece muita simpatia, ele pode até pensar que é uma prostituta e com as prostitutas se pode fazer qualquer coisa. Veja bem, qualquer coisa. E assim nós, moças de bem, nós que não somos prostitutas, nós que em teoria merecemos os respeito dos homens, criamos todas as estratégias para ter uma vida normal e nunca nos colocarmos em situação de risco. Meninas sem carro dormem na casa das amigas, imploram compania para os trajetos, as vezes até pra desconhecidas, conheci uma menina que esperava amanhecer pra voltar pra casa, se saia a noite.
No entanto, não importa o quão previnida você seja, em algum momento vai se encontrar nesta situação. Um estacionamento escuro, um trajeto pequeno que seja, algum erro de cálculo, afinal quando você chegou mais cedo esse lugar parecia tão mais seguro. E se as deusas ajudarem vai ser só mais um susto, que quando passar você vai se sentir boba, pensar que a situação não é tão ruim assim e que afinal de contas essas coisas não acontecem deste jeito, com essa frequência.
E quando você finalmente se sente mais segura, descobre que uma conhecida foi estuprada, ou ainda, que uma desconhecida foi estuprada em um lugar que você frenquenta. E você talvez comente com uma amiga, que vai dizer que é bravo e não vai tocar no assunto. E sozinha você sabe que aquele sentimento incomodo volta de novo a te assombrar.
A pouco tempo uma menina foi estuprada na Universidade de Brasilia. Perto do meu departamento. Tem retratos falados em todos os lugares. A unb não é um lugar violênto pra homens, espaço de furtos e não de assaltos, mas sempre houveram estupros. A unb é um lugar seguro, onde os homens caminham tranquilos à noite.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Sobre Avatar e o caso do Setor Noroeste
O filme do verão deu muito o que falar, e aparentemente vai dar muito mais com esta história toda de Oscar ainda pela frente. E tem o 3D e tal, que pra muita gente foi um atrativo nele mesmo.
Agora, a questão mais importante vem do fato de se inserir na discussão ambiental. Não poderia ter sido em momentum mais adequado, afinal estamos numa virada, momento decisivo e todos nos sabemos, não obstante as seguidas vitórias do capital.
Assim o filme tem o mérito de se colocar no centro da questão ambiental.
Numa estética rave, com elementos tribais africanos* , hollywood reincena a invasão das Américas. A diferença, diferença crucial, é que no filme os "índios" venceram. Não pela superioridade bélica, mas por uma surpreendente virada onde a própria Gaia local, a própria natureza toma partido e ajuda os nativos a expulsarem os invasores. Foi lindo. E tem a história de amor, onde o moçinho branco entende que faz parte de um bando de idiota. Essa parte não é a grande novidade, já tivemos "Dança com lobos" muitos outros exemplos reais e fictícios de situações semelhantes.
É um filme revolucionário, que diz que juntos podemos lutar contra o militarismo e capitalismo sempre associados.
E depois temos Brasilia, segundo tema exposto nessa postagem. Qualquer pessoa em Brasilia que tenha na cabeça algo mais do que academia, dinheiro e azaração tem acompanhado com constrangimento o caso do Santuário dos Pajés, localizado na reserva ambiental a ser transformada no setor noroeste. E tem sua caixa de email bombardeadas por textos, vídeos e informações sobre passeatas e manifestações. No entanto, em Brasília temos a nossa própria versão do Militarismo (Tio Arruda, amado pela PM, principalmente depois de ter dado um aumento pra polícia e arquivado o caso do coronel que agrediu e quebrou o braço de um estudante em uma passeata contra ele) e temos o Capital, o tio Paulo Otávio, grande responsável, junto com outros comparsas, pela especulação imobiliária de Brasilia e que já está podre de rico, mas que acredita que nunca é o suficiente, provavelmente pra compensar algum suspeito complexo de inferioridade.
Assim temos em Brasilia a nossa própria versão do Avatar.
A principio estava pensando muito na invasão das Américas mesmo, afinal a natureza exuberante que tem mais de mata atlântica do que de savanas africanas me fez pensar na gente, e nas continuas derrotas. Depois, pensando melhor vi que esta realidade está muito menos longe, afinal nos aqui em Brasilia temos a nossa cota de invasão, expropriação e destruição da natureza. E o Arruda ainda teve a cara de pau de chamar o setor Faroeste, ops, Noroeste de ecovila, um descarado. O pessoal da biologia já falou das consequências terríveis e desconsideradas deste desmatamento, o problema de água que está na porta de Brasilia, o tratamento de esgoto, o aquecimento e outras histórias.
Aparentemente Paulo Ótário e companhia sairão mais ou menos ilesos. Sem querer ser pessimista, juro que já amarrei o nome deles na boca do sapo e estou na luta para responsabilização e tudo mais. Mas eu gostaria tanto que a nossa realidade parecesse um pouquinho mais com a ficção.
Atualmente porém temos perdido as maiores batalhas ambientais. A conferência de Copenhagen não foi um sucesso e o aquecimento global parece que vai tornar o planeta inabitável.E eu vi, logo depois da conferencia umas propagandas na tv a cabo que me assustaram. Todas elas falavam da necessidade de salvar o planeta, as espécies e as florestas depois de os Estados Unidos e a china terem se recusado a diminuir a emissão de dióxiodo de carbono. No inicio pensei ser uma movimentação civil contra a postura estadunidense, mas depois assisti a uma que falava mais explicitamente (com o Harisson Ford, pra coroar) que as florestas desmatadas eram muito piores para o aquecimento global do que os carros. Ou seja, era na real uma justificativa, dizendo que a culpa do aquecimento global é do terceiro mundo que destroi as florestas (e não do primeiro que banca e compra madeira).
Sou bastante clara no meu posicionamento sobre desmatamento e agronegócio por exemplo, mas temos todos que nos responsabilizar.
Enfim, nossas derrotas estão me deixando um pouco deprimida, o meio ambiente necessita de algumas vitórias.
Aonde estão os homens e mulheres de boa vontade, casseta!
Estou aqui, torcendo enquanto ultima arvore de cerrado permanecer de pé, por um final feliz no nosso Avatar.
http://www.youtube.com/watch?v=CX3e1FEQY6w
http://www.youtube.com/watch?v=If_dlWwd9sg
*A saudação dos nativos do filme faz referência direta à expressão "Sawu bona"-literalmente "te vejo", expressão utilizada pelas tribos do norte da Africa do Sul. Ver Peter Senge (1997).
Agora, a questão mais importante vem do fato de se inserir na discussão ambiental. Não poderia ter sido em momentum mais adequado, afinal estamos numa virada, momento decisivo e todos nos sabemos, não obstante as seguidas vitórias do capital.
Assim o filme tem o mérito de se colocar no centro da questão ambiental.
Numa estética rave, com elementos tribais africanos* , hollywood reincena a invasão das Américas. A diferença, diferença crucial, é que no filme os "índios" venceram. Não pela superioridade bélica, mas por uma surpreendente virada onde a própria Gaia local, a própria natureza toma partido e ajuda os nativos a expulsarem os invasores. Foi lindo. E tem a história de amor, onde o moçinho branco entende que faz parte de um bando de idiota. Essa parte não é a grande novidade, já tivemos "Dança com lobos" muitos outros exemplos reais e fictícios de situações semelhantes.
É um filme revolucionário, que diz que juntos podemos lutar contra o militarismo e capitalismo sempre associados.
E depois temos Brasilia, segundo tema exposto nessa postagem. Qualquer pessoa em Brasilia que tenha na cabeça algo mais do que academia, dinheiro e azaração tem acompanhado com constrangimento o caso do Santuário dos Pajés, localizado na reserva ambiental a ser transformada no setor noroeste. E tem sua caixa de email bombardeadas por textos, vídeos e informações sobre passeatas e manifestações. No entanto, em Brasília temos a nossa própria versão do Militarismo (Tio Arruda, amado pela PM, principalmente depois de ter dado um aumento pra polícia e arquivado o caso do coronel que agrediu e quebrou o braço de um estudante em uma passeata contra ele) e temos o Capital, o tio Paulo Otávio, grande responsável, junto com outros comparsas, pela especulação imobiliária de Brasilia e que já está podre de rico, mas que acredita que nunca é o suficiente, provavelmente pra compensar algum suspeito complexo de inferioridade.
Assim temos em Brasilia a nossa própria versão do Avatar.
A principio estava pensando muito na invasão das Américas mesmo, afinal a natureza exuberante que tem mais de mata atlântica do que de savanas africanas me fez pensar na gente, e nas continuas derrotas. Depois, pensando melhor vi que esta realidade está muito menos longe, afinal nos aqui em Brasilia temos a nossa cota de invasão, expropriação e destruição da natureza. E o Arruda ainda teve a cara de pau de chamar o setor Faroeste, ops, Noroeste de ecovila, um descarado. O pessoal da biologia já falou das consequências terríveis e desconsideradas deste desmatamento, o problema de água que está na porta de Brasilia, o tratamento de esgoto, o aquecimento e outras histórias.
Aparentemente Paulo Ótário e companhia sairão mais ou menos ilesos. Sem querer ser pessimista, juro que já amarrei o nome deles na boca do sapo e estou na luta para responsabilização e tudo mais. Mas eu gostaria tanto que a nossa realidade parecesse um pouquinho mais com a ficção.
Atualmente porém temos perdido as maiores batalhas ambientais. A conferência de Copenhagen não foi um sucesso e o aquecimento global parece que vai tornar o planeta inabitável.E eu vi, logo depois da conferencia umas propagandas na tv a cabo que me assustaram. Todas elas falavam da necessidade de salvar o planeta, as espécies e as florestas depois de os Estados Unidos e a china terem se recusado a diminuir a emissão de dióxiodo de carbono. No inicio pensei ser uma movimentação civil contra a postura estadunidense, mas depois assisti a uma que falava mais explicitamente (com o Harisson Ford, pra coroar) que as florestas desmatadas eram muito piores para o aquecimento global do que os carros. Ou seja, era na real uma justificativa, dizendo que a culpa do aquecimento global é do terceiro mundo que destroi as florestas (e não do primeiro que banca e compra madeira).
Sou bastante clara no meu posicionamento sobre desmatamento e agronegócio por exemplo, mas temos todos que nos responsabilizar.
Enfim, nossas derrotas estão me deixando um pouco deprimida, o meio ambiente necessita de algumas vitórias.
Aonde estão os homens e mulheres de boa vontade, casseta!
Estou aqui, torcendo enquanto ultima arvore de cerrado permanecer de pé, por um final feliz no nosso Avatar.
http://www.youtube.com/watch?v=CX3e1FEQY6w
http://www.youtube.com/watch?v=If_dlWwd9sg
*A saudação dos nativos do filme faz referência direta à expressão "Sawu bona"-literalmente "te vejo", expressão utilizada pelas tribos do norte da Africa do Sul. Ver Peter Senge (1997).
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
O Conde de Montecristo
Dia desses revi esse filme, que é então, um clássico da literatura mundial. Preciso confessar que adorei, mesmo agora podendo reconhecer uma série de coisas que na minha adolescência escaparam vergonhosamente.
Vergonhosamente não, porque afinal a gente sabe o que sabe, na época que sabe. Tenho certeza que daqui há dez anos vou me achar uma verdadeira anta. Que é mais ou menos o que penso de mim mesma há dez anos atrás.
Agora, que o Tio Dumas tinha a habilidade de escrever uma boa história, cheia de aventura e emoção, isso lá ele tinha. Só achei engraçado perceber que no centro deste enredo existe a discussão sobre a burguesia e da sua luta por espaço junto da aristocracia, e que eu nunca percebi isso.
O x da questão é que o personagem principal e fantástico mocinho Edmond Dantés, o filho de um marinheiro, era na verdade muito mais valoroso que seu amigo de infância, o aristocrata Fernand Mondego. Ele trai o mocinho, o incrimina, casa-se com sua noiva e vive a vida até que o nosso herói escapa da cadeia, arranja um tesouro e vem buscar a sua vingança.
Agora, a justificativa do Fernand é essa, "Eu não posso ter inveja da vc, eu sou seu superior." Donde se vê que a questão está na nobreza não nascida do personagem principal e da perfídia do seu colega, nobre de nascença.
Hoje isso parece óbvio, afinal os burgueses venceram a guerra e nosso capitalismo gosta de nos fazer acreditar que vivemos numa Meritocracia, ou seja, que as pessoas conseguem o que merecem, mas nesta época o romance é uma legitimação da burguesia.
Enfim, não estou escrevendo pra falar mal do livro ou do filme, de jeito nenhum, mas achei interessante dividir reflexões.
=)
Vergonhosamente não, porque afinal a gente sabe o que sabe, na época que sabe. Tenho certeza que daqui há dez anos vou me achar uma verdadeira anta. Que é mais ou menos o que penso de mim mesma há dez anos atrás.
Agora, que o Tio Dumas tinha a habilidade de escrever uma boa história, cheia de aventura e emoção, isso lá ele tinha. Só achei engraçado perceber que no centro deste enredo existe a discussão sobre a burguesia e da sua luta por espaço junto da aristocracia, e que eu nunca percebi isso.
O x da questão é que o personagem principal e fantástico mocinho Edmond Dantés, o filho de um marinheiro, era na verdade muito mais valoroso que seu amigo de infância, o aristocrata Fernand Mondego. Ele trai o mocinho, o incrimina, casa-se com sua noiva e vive a vida até que o nosso herói escapa da cadeia, arranja um tesouro e vem buscar a sua vingança.
Agora, a justificativa do Fernand é essa, "Eu não posso ter inveja da vc, eu sou seu superior." Donde se vê que a questão está na nobreza não nascida do personagem principal e da perfídia do seu colega, nobre de nascença.
Hoje isso parece óbvio, afinal os burgueses venceram a guerra e nosso capitalismo gosta de nos fazer acreditar que vivemos numa Meritocracia, ou seja, que as pessoas conseguem o que merecem, mas nesta época o romance é uma legitimação da burguesia.
Enfim, não estou escrevendo pra falar mal do livro ou do filme, de jeito nenhum, mas achei interessante dividir reflexões.
=)
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Modernidade Líquida - Zygmunt Bauman
Esse senhorzinho polaco tem simplemente virado a minha cabeça do avesso.
Inclusive raramente eu consigo ler ele de um sentada, leio dez páginas, saio pulando pela casa, fazendo associações e ficando muito louca, aí eu volto e tenho que reler as dez páginas pra ter certeza que eu não imaginei aquilo tudo.
Tem uma frase do Drummond que eu acho que tem uma das chaves do mundo, aí vai
"A porta da verdade estava aberta mas só deixava entrar meia pessoa de cada vez."
É neste papo de meias verdades que o Bauman entra. Muitas são as vantagens de se viver no nosso tempo e espaço, na nossa sociedade, ou pelo menos assim a gente gosta de acreditar. Não estamos numa ditadura nem nada e, eu pelo menos, como mulher, acho um barato poder votar, trabalhar, estudar e trepar, todas coisas que de trinta anos pra trás ia aumentando consideravelmente em dificuldade.
Agora, ele tem a habilidade de mostrar exatamente os furos do nosso raciocinio, explicar certos estados de mal estar difusos que a gente sente sem saber pra onde apontar.
Com o seu cachimbo, ora num estilo Sherlock me diz "Elementar, minha cara Laura", ora num cinismo de doer embaixo da unha expõe as maiores atrocidades do que ele chama a nossa "Modernidade Líquida".
A última foi falando sobre o o espaço público e o privado. Dizia que o maior medo da primeira modernidade (ou a modernidade pesada, como ele chama) era o controle do público sobre o privado, do estado sobre o indivíduo, demonstrado em livros como Admirável Mundo Novo, ou 1984, e que contrariando expectativas, o que aconteceu foi um controle do privado sobre o público, esvaziando o espaço de discussão politica.
Aí ele come com farinha dizendo que a individualidade, o individualismo criou uma crença de que cabe a nos individuos individualizados dar contas de problemas criados pela sociedade, como se criados por nos mesmo. A gente tira a complexidade da situação social e coloca a culpa no indivíduo, na sua dificuldade ou falta de habilidade de resolver situações, aumentando assim o sentimento de controle da realidade.
Algumas vezes ouvi um pouco a expressão de "culpabilização da vitima" e pra mim faz sentido com o que o Bauhman diz. Algumas vezes falando de racismo ou violência contra a mulher num boteco qualquer ouvimos essas falas, tipo, o que ela estava fazendo andando naquele lugar a noite, ou porque se permite bater. Ou ainda, e esta é minha preferida, "O problema do preconceito é que os negros tem preconceito com eles mesmos, por isso tem problemas."
Deve ser fantastico conseguir reduzir os problemas sociais a este nível. O Bauman fala tb que nos sentimos então muito incapazes de resolver os nossos problemas, já que nos colocamos como os que os resolverão individualmente.
E coloca sessão de terapia na parada!
Enfim.
Bem vindo ao meu blog.
Inclusive raramente eu consigo ler ele de um sentada, leio dez páginas, saio pulando pela casa, fazendo associações e ficando muito louca, aí eu volto e tenho que reler as dez páginas pra ter certeza que eu não imaginei aquilo tudo.
Tem uma frase do Drummond que eu acho que tem uma das chaves do mundo, aí vai
"A porta da verdade estava aberta mas só deixava entrar meia pessoa de cada vez."
É neste papo de meias verdades que o Bauman entra. Muitas são as vantagens de se viver no nosso tempo e espaço, na nossa sociedade, ou pelo menos assim a gente gosta de acreditar. Não estamos numa ditadura nem nada e, eu pelo menos, como mulher, acho um barato poder votar, trabalhar, estudar e trepar, todas coisas que de trinta anos pra trás ia aumentando consideravelmente em dificuldade.
Agora, ele tem a habilidade de mostrar exatamente os furos do nosso raciocinio, explicar certos estados de mal estar difusos que a gente sente sem saber pra onde apontar.
Com o seu cachimbo, ora num estilo Sherlock me diz "Elementar, minha cara Laura", ora num cinismo de doer embaixo da unha expõe as maiores atrocidades do que ele chama a nossa "Modernidade Líquida".
A última foi falando sobre o o espaço público e o privado. Dizia que o maior medo da primeira modernidade (ou a modernidade pesada, como ele chama) era o controle do público sobre o privado, do estado sobre o indivíduo, demonstrado em livros como Admirável Mundo Novo, ou 1984, e que contrariando expectativas, o que aconteceu foi um controle do privado sobre o público, esvaziando o espaço de discussão politica.
Aí ele come com farinha dizendo que a individualidade, o individualismo criou uma crença de que cabe a nos individuos individualizados dar contas de problemas criados pela sociedade, como se criados por nos mesmo. A gente tira a complexidade da situação social e coloca a culpa no indivíduo, na sua dificuldade ou falta de habilidade de resolver situações, aumentando assim o sentimento de controle da realidade.
Algumas vezes ouvi um pouco a expressão de "culpabilização da vitima" e pra mim faz sentido com o que o Bauhman diz. Algumas vezes falando de racismo ou violência contra a mulher num boteco qualquer ouvimos essas falas, tipo, o que ela estava fazendo andando naquele lugar a noite, ou porque se permite bater. Ou ainda, e esta é minha preferida, "O problema do preconceito é que os negros tem preconceito com eles mesmos, por isso tem problemas."
Deve ser fantastico conseguir reduzir os problemas sociais a este nível. O Bauman fala tb que nos sentimos então muito incapazes de resolver os nossos problemas, já que nos colocamos como os que os resolverão individualmente.
E coloca sessão de terapia na parada!
Enfim.
Bem vindo ao meu blog.
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