Esse senhorzinho polaco tem simplemente virado a minha cabeça do avesso.
Inclusive raramente eu consigo ler ele de um sentada, leio dez páginas, saio pulando pela casa, fazendo associações e ficando muito louca, aí eu volto e tenho que reler as dez páginas pra ter certeza que eu não imaginei aquilo tudo.
Tem uma frase do Drummond que eu acho que tem uma das chaves do mundo, aí vai
"A porta da verdade estava aberta mas só deixava entrar meia pessoa de cada vez."
É neste papo de meias verdades que o Bauman entra. Muitas são as vantagens de se viver no nosso tempo e espaço, na nossa sociedade, ou pelo menos assim a gente gosta de acreditar. Não estamos numa ditadura nem nada e, eu pelo menos, como mulher, acho um barato poder votar, trabalhar, estudar e trepar, todas coisas que de trinta anos pra trás ia aumentando consideravelmente em dificuldade.
Agora, ele tem a habilidade de mostrar exatamente os furos do nosso raciocinio, explicar certos estados de mal estar difusos que a gente sente sem saber pra onde apontar.
Com o seu cachimbo, ora num estilo Sherlock me diz "Elementar, minha cara Laura", ora num cinismo de doer embaixo da unha expõe as maiores atrocidades do que ele chama a nossa "Modernidade Líquida".
A última foi falando sobre o o espaço público e o privado. Dizia que o maior medo da primeira modernidade (ou a modernidade pesada, como ele chama) era o controle do público sobre o privado, do estado sobre o indivíduo, demonstrado em livros como Admirável Mundo Novo, ou 1984, e que contrariando expectativas, o que aconteceu foi um controle do privado sobre o público, esvaziando o espaço de discussão politica.
Aí ele come com farinha dizendo que a individualidade, o individualismo criou uma crença de que cabe a nos individuos individualizados dar contas de problemas criados pela sociedade, como se criados por nos mesmo. A gente tira a complexidade da situação social e coloca a culpa no indivíduo, na sua dificuldade ou falta de habilidade de resolver situações, aumentando assim o sentimento de controle da realidade.
Algumas vezes ouvi um pouco a expressão de "culpabilização da vitima" e pra mim faz sentido com o que o Bauhman diz. Algumas vezes falando de racismo ou violência contra a mulher num boteco qualquer ouvimos essas falas, tipo, o que ela estava fazendo andando naquele lugar a noite, ou porque se permite bater. Ou ainda, e esta é minha preferida, "O problema do preconceito é que os negros tem preconceito com eles mesmos, por isso tem problemas."
Deve ser fantastico conseguir reduzir os problemas sociais a este nível. O Bauman fala tb que nos sentimos então muito incapazes de resolver os nossos problemas, já que nos colocamos como os que os resolverão individualmente.
E coloca sessão de terapia na parada!
Enfim.
Bem vindo ao meu blog.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
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Oi, Laurinha! Vi o endereço no orkut, aqui estou. Adorei a idéia e visitarei esse pedaço com a constância que o fim do mestrado permitir. Bauman é mesmo fantástico. Além da série "líquida" (Amores Líquidos, Tempos Líquidos, Medos Líquidos etc), recomendo um bem recente dele (senão for o mais): "A arte da Vida". É meio que um síntese dos outros, um livro sobre a vida em nossos tempos sobre o olhar e o cachimbo (!) de Bauman. Beijo grande, Raquel
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